Direito&Arte: seria “um álibi perfeito”?
Na coluna Direito&Arte, Roberto Victor trata do filme do diretor Peter Howitt, Álibi Perfeito (2014).
Por Roberto Victor
Sempre acreditei que a interação entre Direito e arte ensejaria em
uma melhor forma de compreensão e, principalmente, em melhor forma de
pedagogia. Os filmes, os livros, as músicas, as pinturas e as outras
manifestações de artes quando trazem elementos jurídicos ajudam a
consolidar aquilo que as normas e as ciências jurídicas esperam do
cidadão constitucional.
A película de hoje, “Um álibi perfeito”, é mais uma daquelas
gravações que surpreende o espectador e auxilia na consecução do
objetivo principal da humanidade: a pacificação social!
No começo do filme, logo após a cena de uma praça coberta por neve, o
personagem Mitch Brockden, Promotor de Justiça, trava a seguinte
mensagem: “Nenhum fato, nem a sociedade disse a ele para amarrá-la,
enfiar uma arma na cara dela e roubar todos os seus pertences. Isso foi
ele que escolheu”. E finaliza dizendo que de onde você vem não determina
quem você é!
É bem verdade que muitos agentes sociais, inclusive, nós, cientistas
jurídicos, determinam que a falta de oportunidade e a total ausência do
Estado é fator preponderante para a somatização e a fase pandêmica de
crimes. Isso pode ter um fundo ou uma boa parcela de verdade, mas não
pode servir para panegíricos e encômios aos infratores e traidores do
contrato social. É cediço que a falta de educação, de saneamento básico,
de postos de trabalho e outras mazelas contribuem para o estado de
violência, afinal, essas ausências são os mecanismos criadores e
geradores da barbárie. O pensamento proferido pelo Promotor de Justiça
americano Mitch Brockden alerta que a ausência de Estado não pode servir
de desculpa para os que querem infringir as normas, uma vez que nenhuma
falta de oportunidade ou a sociedade que virou as costas obrigou o
indivíduo a corromper, matar, roubar, vilipendiar direitos, torturar etc., tampouco
o lugar em que ele nasceu e foi criado é condição determinante para
dizer quem ele é. Não adianta culparmos as favelas, os guetos, as
estâncias marginalizadas da sociedade para dizer que por isso ali se
fabricam celerados.
Detalhe importante do filme é que a Promotoria de Justiça no
ordenamento jurídico americano funciona totalmente diferente da nossa.
Lá em plagas estadunidenses a promotoria é privada e quanto mais
condenações mais prestígio e poder para o promotor.
No enredo do filme o Promotor de Justiça Mitch Brockden empós sair
alcoolêmico de um bar resolve voltar dirigindo seu veículo para casa. No
caminho atropela um homem e o que parecia ser um abalroamento de
veículo contra corpo humano causado por culpa exclusiva da vítima acaba
se revelando um dos melhores enredos de filmes com temas jurídicos que
já foi filmado. O Promotor buscava aplacar o tribunal de sua consciência
por ter omitido socorro ao atropelado mas acabou servindo de álibi para
um famigerado matador em série? Foi assim?
Quem gosta de pipoca pode ir preparando a sua para assistir uma trama
bem escrita, com atuações magistrais de atores e atrizes e pitadas sem
economia de muitas figuras jurídicas. Um raro exemplar de jigsaw puzzle em formato filmográfico.
REASONABLE DOUBT. Direção: Peter Howitt. Elenco: Dominic Cooper, Samuel L. Jackson, Gloria Reuben, Ryan Robbins, Erin Karpluk, et al. COR, CANADÁ/ALEMANHA, 2014, Suspense Policial, DVD, 91 min.

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